Procurando
Os Viajões
Tiago Scheuer, Xóia, 28 anos. Jornalista. Curte sorvete, chocolate e cebola. Foge de abacate, gente efusiva e pagode. Não quer ficar careca e sonha em fazer um filme. É catarinense, calorento, adora piscina e TV. Ama viajar, mas odeia a burocracia dos aeroportos.
Marcos Vinícius, Coqs, 25 anos. Não sabe escrever, não gosta de pentear o cabelo, publicitário, possui algumas histórias sobre desconforto intestinal, gosta de viajar, curitibano, sorrateiro, sem mais delongas.
Amanda Malucelli, Amandinha quase sempre. Publicitária, curte brincar de cinema. Roteiros (sejam de filmes ou de viagens) fazem sua cabeça. É mais forte do que aparenta, mais baixinha do que você imagina e só aprendeu a andar de bicicleta aos 19 anos. Herdou da mãe a mania quase psicótica de viajar sempre que possível, da vó a eterna busca por saber sempre mais e do pai o apreço pelas pessoas, tudo o que não pode faltar na bagagem!
Colaborões.
<span style=”color: #000080;”>Ela é a atual campeã do Rock’n Rollo em Curitiba (veja aqui o que é), faz aniversário no mesmo dia que eu (clap clap), netweaver da Aldeia Coworking e se tudo der certo vamos faturar uma grana no Amazing Race do Canal Space (irra!) e pra não perder o costume das colaboronas desse blog, mais uma gata por aqui. Hoje teremos a história de Andreza Soinegg, mais conhecida como Deza, contando sua aventura no caminho de Santiago de Compostela. Valeu Deza!! E pra você que quer contar sua história, é só mandar pro souviajao@gmail.com que nós contamos pra geral. Valeu.
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Caminho de Santiago.
Em um voo de Curitiba a São Paulo, com a revista TAM na mão e um texto belíssimo sobre o Caminho de Santiago, decidi pedir demissão e vender meus bens (pouquíssimos) para me arriscar (não pela primeira vez) pela Europa, começando pelo Caminho de Santiago. Não, nunca li o livro do Paulo Coelho.
Após as minhas vendas, fazer vaquinha com a família e arriscar viajar com a grana contada para 3 meses (e passagem para 6), peguei o Voo para Curitiba-São Paulo-Roma-Paris-Bordeaux, onde deixei a bagagem mais pesada e segui com minha mochila de 10 kilos a Saint-Jean-Pied-Du-Port.
E foi lá que tudo começou. 32 dias, 800 km e muitas histórias.
O chato de contar pra vocês as minhas experiências em detalhes é criar expectativas erradas naqueles que um dia vão querer fazer também, assim como eu evitei ler sobre as experiencias alheias e foquei em buscar técnica, dicas do caminho e até a história por trás da história (Caminho da Via Lactea, Druidas, Muçulmanos, país basco, igreja católica etc), vou passar aqui um resumo do resumo.
O primeiro dia de caminhada seria pelos Pirineus e o caminho já se iniciava turbulento, houve nevasca, então nada de ir pelas montanhas e sim pelo Vale.
O primeiro dia é puxado, pelo Vale ou não, o índice de desistência é alto. E foi nesse dia, exausta, com fome e frio que conheci a Marina, uma brasileira que virou uma irmã e caminhou comigo por mais 14 dias.
E não adianta tentar se preparar psicologicamente para o que está por vir, o caminho te surpreende, sempre. Albergues malucos, alimentação excelente (ou nem tanto), muito vinho (muito mesmo), festas e dor (essa não podia faltar né). Muitas vezes chuveiro só com água gelada, albergues que de madrugada fazem -4C, bad bugs, peregrinos e mais peregrinos em um mesmo quarto (lembrando que alguns não tomam banho), ronco (muito ronco) e por fim, o peso. Em algum momento do caminho os 10kg da sua mochila vão parecer mais, muito mais e você vai começar a se livrar de coisas que antes achava essencial na sua jornada.
Mas essas coisas que escrevi acima refletem (ao fazer o caminho) coisas positivas e você termina o dia rindo, seja pelo vinho, pelo cansaço ou pelas vitórias.
E foi assim que num belo dia de sol a caminhada seria de 36km e de longe eu avistava A chuva, o caminho era longo e a chuva ia chegar em breve. E chegou, e me molhou (muito) e rasgou minha capa com o vento (muito) e me deixou chorando (muito) e que se resolveu ao encontrar o albergue do Dudu em Boadilhas del Camino e ser recebida com um sorriso, banho quente e Elis Regina.
Ou como em Carrion de Los Condes onde fizemos o maior jantar coletivo da história do Albergue, com as freiras nos recebendo a canto gregoriano, muita gente maluca na cozinha e muito vinho pra deixar o ronco dos outros mais suportável.
Ou como um dia depois, passar mal em uma cidade (na verdade Pueblo, com 23 habitantes) sem telefone público, sem hospital, sem porra nenhuma e ser atendida por um médico peregrino que passava logo depois.
Ou como conhecer um senhor que durante 2 anos programava e praticava caminhadas com sua mulher para fazer o caminho de Santiago e ela vem a falecer 1 mês antes de viagem. Em memória a ela, ele andava com dois passaportes Perigrinos, um com o nome dela para colocar todos os carimbos que ele também colocava no dele.
Ou ainda conhecer Coreanos, Chineses, Franceses, Dinamarqueses, Alemães, Espanhóis, Egipcianos, Brasileiros, Colombianos e ficar em contato com eles mesmo 2 anos depois de ter feito o caminho, e rir e chorar ao ver fotos compartilhadas.
Mas não vou dizer pra vocês que o Caminho muda as pessoas, vou dizer que as pessoas mudam no caminho. E talvez mudar também não seja a palavra exata, afinal, as pessoas realmente mudam? Mas confesso que aprendi muito e voltei mais eu, entende?! Voltei como quem espera setas amarelas em cada esquina da cidade, voltei pra essa vida que não é tão simples como os 800km, é uma caminhada eterna, cheia de bolhas, gastrointerites e vendavais. E o que tento até hoje, e confesso ser difícil, é lembrar de todas as epifanias que se tem ao caminhar sozinha por tanto tempo, é lembrar das escolhas e para onde elas me levaram, é lembrar que ao esquecer de observar a seta eu me perdia, e que voltar pro caminho requeria 5km a mais nas minhas pernas. Quanto será que vale 5km agora, nesse caminho nosso de cada dia?





